Risotto de Peru com Grelos



Do pouco se faz muito. E das sobras de comida faz-se sempre muito mais. Há sempre pratos novos à mesa com o que fica da refeição passada. Reaproveitar, reciclar e não desperdiçar.
Desde pequena que aprendi que não se deita comida fora. Vi sempre os meus avós e pais a guardarem as sobras do que se cozinhava para comer depois, e até muito do que não se aproveitava para o prato em si, como cascas e talos de legumes ou fruta iam para as galinhas e porcos.
Sempre vi em casa, na horta, no quintal e na nossa cozinha, um equilíbrio perfeito. O que cresce na terra sem produtos químicos, as galinhas do campo com ovos felizes, o sabor dos alimentos de cada estação, o ver crescer algo que se planta, o amadurecer da fruta na árvore a seu tempo, o valorizar o que vem da terra e levamos à mesa, o não desperdiçar nada na cozinha, e os pratos de conforto que acompanham cada dia e cada época.

No natal a nossa mesa é farta, em comida e alegria. E mesmo dizendo todos os anos que vamos fazer menos, acaba sempre por haver imensas sobras. Mas nada se perde, tudo se transforma à mesa. É esse o lema, nada de desperdícios. 
É o caso do peru de natal, que sobra sempre. Congela-se para mais tarde dar-lhe uma nova vida. Como nesta receita. Um risotto bem simples, que ganha um ar de prato novo. Ao peru juntam-se grelos já cozidos, que nesta altura do ano abundam, e fazemos sempre a mais para depois saltear com alho e azeite ou para um esparregado. Ou neste caso para um risotto. Um prato cheio de conforto para estes dias de inverno. 
Esta receita faz parte de um artigo que desenvolvi para a edição de Janeiro da revista Máxima, onde podem encontrar mais duas boas ideias do que fazer ao peru que ainda tenham no congelador. São receitas simples e económicas, sem desperdícios. Espero que gostem e aproveitem bem as vossas sobras.





Risotto de Peru com Grelos

1 fio de azeite
1 dente de alho picado
1/2 cebola picada
1 chávena de arroz para risotto
1/3 chávena de vinho branco
1,5lt de caldo de legumes
2 chávenas de peru assado desfiado
1 chávena de grelos cozidos picados grosseiramente
parmesão ralado q.b.


Preparação 

Colocar o caldo de legumes ao lume, mantendo bem quente durante a preparação do risotto.
Num tacho aquecer um fio de azeite com o alho e cebola picada até esta ficar mole e translúcida.
Adicionar o arroz e mexer bem, durante uns dois minutos. Juntar depois o vinho branco, mexendo sempre, até o líquido evaporar. 
Em seguida começar a adicionar o caldo de legumes, concha a concha, só a quantidade necessária para cobrir o arroz. Ir sempre mexendo até o arroz absorver o caldo. Adicionar mais caldo à medida que for necessário, sempre a mexer o arroz. Quando estiver quase cozido juntar o peru e os grelos e deixar cozinhar por mais dois minutos.
Retirar do lume e juntar queijo parmesão ralado a gosto, envolvendo suavemente.
Servir imediatamente, com mais queijo ralado.


Nota 1: não coloco sal na receita, porque a carne acaba por lhe dar sabor e tempero, assim como o caldo e o queijo parmesão.
Nota 2: aproveitem outras sobras de legumes e adicionem ao risotto, e podem também usar a ideia da receita para sobras de frango assado ou enchidos.
Nota 3: no final da preparação do risotto podem adicionar uma colher de chá de manteiga ao mesmo tempo que o queijo parmesão, envolvendo no arroz, tornando ainda mais cremoso.
Nota 4: para fazer um caldo de legumes caseiro eu junto numa panela bastante água, uma cenoura grande cortada e a sua rama, uma cebola cortada, um talo de alho francês cortado, alguns grãos de sementes de coentro, mostarda e pimenta, uma folha de louro e algumas ervas aromáticas (salsa, tomilho) e deixo ferver pelo menos meia hora a uma hora. Depois coar e está pronto a usar. Também o podem congelar.

Bom Apetite!






Pavlova em Coroa



Um ano que se passou. E um novo ano ainda em branco. Está pronto a ser escrito, a ser pintado com as cores que gostamos mais, a ser contado em palavras e cozinhado em sabores e cheiros.
Não costumo fazer resoluções de ano novo, nem penso em metas e objectivos que pretendo atingir. Não tenho esse hábito, não quero fazer dietas nem perder peso, não quero planear viagens que depois não consigo fazer, não quero mudar de vida radicalmente, não quero mudar de emprego só porque na minha área há precariedade. Não quero dizer um monte de coisas só por dizer. Se algo mudar que seja porque é tempo para isso, porque mereço e lutei por isso, e não preciso que seja Janeiro para o fazer.
Claro que desejo que seja um bom ano, mas acima de tudo penso nele sempre com esperança. E com sonhos agarrados a mim.

De alguma forma acabo sempre por pensar no ano que passou, nos sentimentos que senti, nas coisas que vivi, mas sem nostalgia (essa fica sempre para o fim do verão). Não foi um ano fácil, não. Foi cheio de rasteiras e sustos. Mas em vez de pensar no que menos gostei nele, prefiro olhar para trás e ver os dias felizes. As oportunidades que agarrei, os desafios que abracei, e ver que se calhar até sou capaz de me safar nesta história que se chama vida. Pensar nos bons momentos com quem amo, nos pedacinhos de sol e amizade que tive, nas coisas novas que aprendi, no milagre que presenciei. Sim, porque afinal os milagres acontecem, e este ano que passou foi esse o momento que me deixou mais feliz e grata (apesar da dor e da frustração pelo meio). E se os milagres acontecem, há sempre esperança, há sempre sonho, é sinal que o melhor ainda está por vir (como diz uma amiga minha).

Este ano e sempre, escolho sonhos, escolho sentimentos, escolho ser mais feliz. Escolho as pequenas coisas da vida que me fazem sentir bem, e as grandes também (os milagres). 
E trago-vos uma coroa doce. Quero mais este lado doce da vida. Uma pavlova branca pronta a ser pintada com groselhas, compota e canela. Que se partiu a meio das fotografias, e me fez rir. Que foi degustada por nós e por amigos e vizinhos, gente boa e que nos faz feliz.
Fica a sugestão para o Dia de Reis. E para dias mais doces.
Desejo um bom ano a todos os leitores! Cheio de momentos doces e felizes.








Pavlova em Coroa
(inspirada na Donna Hay)

6 claras de ovo
330 gr de açúcar branco
1 e 1/2 colher (chá) de vinagre de sidra

para servir:
250 ml natas frescas
2 colheres (sopa) de açúcar
canela em pó q.b.
groselhas frescas q.b.
compota de frutos vermelhos q.b.


Preparação

Pré-aquecer o forno a 150ºC. Desenhar um círculo com 25cm de diâmetro numa folha de papel vegetal antiaderente e colocar dentro de uma tabuleiro.
Com a batedeira eléctrica bater as claras em castelo até ficarem bem firmes. Começar a juntar o açúcar, uma colher de sopa de cada vez, e bater entre cada adição, até ficar incorporado.
Bater depois durante uns 5 minutos até a mistura ficar brilhante e espessa.
Adicionar depois o vinagre e bater por mais 2 minutos.
Colocar colheradas da mistura dentro do círculo desenhado, em toda a volta, formando uma coroa.
Reduzir a temperatura do forno para 120ºC e colocar a pavlova a cozer cerca de 1 hora e 20 minutos.
Depois desse tempo, desligar o forno e deixar a pavlova lá dentro até arrefecer por completo (eu coloco uma colher de pau na porta do forno para deixar uma abertura).
Para a cobertura, bater as natas até ficarem firmes, adicionar o açúcar e bater mais um pouco só para incorporar e juntar canela a gosto de forma a ficar com um chantilly de canela.
Na altura de servir, colocar a pavlova num prato grande, cobrir com o chantilly de canela, colocar as groselhas, uns fios de compota de frutos vermelhos (eu usei uma compota caseira de morango e especiarias) e salpicar com canela.

Bom Apetite!








Panettone de Natal



E num instante estamos no natal. Estava eu ainda no Alentejo nas férias do verão, quando disse que dali ao natal era um saltinho. E foi mesmo. Chega sempre demasiado depressa, e nunca me permite fazer tudo o que queria, principalmente na cozinha e nos encontros com amigos e familiares.
Mas vamos celebrar o mais importante. O amor, o estarmos juntos à mesa, a partilha, a família, as coisas boas que nos unem e nos fazem sorrir.

Nesta época recordo-me sempre do natal quando era pequena. As imagens e os cheiros são de boas recordações. O forno a lenha aceso e as brincadeiras com os primos. A árvore de natal natural e tosca com as luzinhas, e o presépio enfeitado com o musgo apanhado no pinhal. Uma mesa simples, mas cheia de afectos e comida de conforto. As receitas de família presentes na mesa. Os sonhos da minha avó, o arroz doce da minha mãe. Tradições. Havia sempre coquinhos, que eu fazia com a ajuda da minha mãe. E ao dia seguinte era ver um rasto de bolinhos de coco trincados espalhados pela casa. A única coisa que me lembro que não gostava eram as malditas passas e frutas cristalizadas, que retirava uma a uma do que estivesse a comer.

Lembro-me que na noite de natal dormia sempre com os meus avós, aconchegada no meio dos dois. E que boa recordação esta. Sinto-a como um lugar seguro, um amor sem fim.
De madrugada levantava-me de mansinho para ver se o menino Jesus já tinha descido pela chaminé e deixado um presente ao lado do sapatinho. Abria a prenda e voltava para a cama abraçada a ela. E pela manhã acordava com o cheiro da cevada quente, acabada de fazer. Memórias boas e doces, de uma menina feliz. 
A menina hoje já gosta de passas e faz bolo-rei e panettone em casa. Para celebrar o natal. E este ficou tão bom, macio e cheio de passas embebidas em rum e com o perfume dos citrinos. 
Que o vosso natal seja doce e muito feliz, e que se façam novas memórias para mais tarde recordar. Boas festas!






Panettone de Natal
(adaptado do livro "GBBO Winter Kitchen" de Lizzie Kamenetzky)
80 gr de passas
3 colheres (sopa) de rum escuro
200 gr de manteiga amolecida
100 gr de açúcar amarelo
1 colher (chá) de pasta de baunilha
3 ovos batidos
raspa de 1 laranja
raspa de 1 limão
600 gr de farinha de trigo sem fermento
2 saquetas de 7g de fermento de padeiro seco
1 colher (chá) de sal
200 ml leite morno
50 gr de laranja cristalizada picada
50 gr de alperces secos picados
açúcar em pó para salpicar


Preparação

Colocar as passas e o rum num tachinho pequeno e levar ao lume a aquecer por 2 minutos. Deixar repousar para a fruta embeber o rum.
Numa taça grande colocar a manteiga, a baunilha e o açúcar e bater muito bem com a batedeira eléctrica, por uns 5 minutos. Adicionar o ovos batidos e as raspas de laranja e limão e bater muito bem até ficar incorporado. 
Noutra taça grande colocar a farinha e misturar o sal. Polvilhar com o fermento. Abrir um buraco no centro da farinha e colocar o leite ligeiramente morno, misturando tudo em seguida. Juntar esta mistura à da manteiga com ovos e açúcar e bater muito bem a massa na batedeira eléctrica, com o gancho das massas (em alternativa poderá amassar à mão por uns 10 minutos) até a massa ficar homogénea e elástica. 
Formar uma bola com a massa e colocar numa taça, tapando com um pano e deixar levedar num sítio morno por cerca de 1h30. 
No fim de levedar, colocar a massa sobre uma superfície enfarinhada e amassar por 1 minuto, juntando em seguida as passas, a laranja cristalizada e os alperces amassando as frutas na massa, até ficarem bem incorporadas. Formar uma bola com a massa e colocar numa forma de panettone (em alternativa usar uma forma redonda com 20cm de diâmetro e com papel vegetal nas laterais ficando mais alto que a forma e atar à volta com fio de cozinha), tapar com um pano e deixar num sítio morno a levedar por mais umas 2 horas até a massa crescer o dobro ou triplo.
Pré-aquecer o forno a 200ºC e pincelar a superfície do panettone com leite ou ovo batido. Levar ao forno reduzindo para 180ºC passado uns 15 minutos, até cozer ou um palito espetado no centro vier limpo (uns 45 a 60 minutos). A meio da cozedura poderá ser necessário colocar papel de alumínio para não queimar o topo do panettone.
Deixar arrefecer dentro da forma de panettone e só depois desenformar, ou caso usem uma forma normal devem desenformar passado 5 minutos de sair do forno. Salpicar com açúcar em pó na altura de servir.

Bom Apetite!

(Cake Stand by Coco e Baunilha)